segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

SAMBA DE SÃO PAULO É TRADIÇÃO NO CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL - SP


Texto: Carlos Primo Vaz

O samba de São Paulo, na figura de Geraldo Filme (1928-1995), é homenageado no projeto "É Tradição e o Samba Continua", uma série de apresentações musicais, em cartaz até 3 de fevereiro no Centro Cultural Banco do Brasil (rua Álvares Penteado, 112 - Centro). No evento, reúnem-se músicos consagrados e os novos nomes do samba em terras paulistas, para a alegria do público apreciador da música brasileira.

O compositor Geraldo Filme atuou na cena musical e artística da capital paulistana. Com o samba-enredo "Solano Trindade, Menino de Recife" levou a Escola de Samba Vai-Vai ao campeonato nos anos 70. Nascido no interior, veio garoto para a capital e era um personagem de carisma no samba de de São Paulo. Como intérprete, gravou um disco solo (relançado há alguns anos em CD) e um trabalho documental chamado "O Canto dos Escravos", junto a Clementina de Jesus e Doca da Portela, fruto de uma pesquisa sobre os cantos do garimpo no Brasil colonial.

Nesta terça, 20 de janeiro, às 13h00 e às 19h30, estarão em cena o Berço do Samba de São Matheus e Dona Inah. Na terça passada, em 13 de janeiro, o compositor Osvaldinho da Cuíca mostrou o samba no pé e muita disposição ― o show de abertura foi realizado pelo Samba da Vela, da zona sul paulistana.

Osvaldinho começou o espetáculo (das 19h30) com o samba "Tiririca", que tem como inspiração uma prática (definida por alguns como uma capoeira rudimentar paulista, chamada também de pernada) que acontecia nas reuniões da velha-guarda do samba paulista no Largo da Banana, das quais participava Osvaldinho. A tiririca, diferente da capoeira, não dependia de instrumentos para acontecer, bastavam latas de lixo e de graxa e o som das palmas para marcar o ritmo enquanto os homens duelavam e se exercitavam. Geraldo, Toninho Batuqueiro e outros bambas se faziam presentes nesta roda de samba na Barra Funda, bairro de laços culturais entre negros e italianos, como a nossa Bela Vista.

O nome do evento no CCBB é uma frase tirada de "Tradição", samba bastante conhecido de Geraldo Filme: Quem nunca viu o samba amanhecer/ Vai no Bixiga pra ver/ Vai no Bixiga Pra ver /O samba não levanta mais poeira/ O asfalto cobriu o nosso chão/ Lembranças eu tenho da Saracura/ Saudades eu tenho do nosso cordão/ Bixiga hoje é só arranha-céu/ E já não se vê mais a luz da lua/ Mas o Vai-Vai está firme no pedaço/ É tradição e o samba continua.


CLIQUE NOS LINKS:


1.Veja a homepage do projeto "É Tradição e o Samba Continua".

2.Leia o texto publicado no Portal Capoeira, que fala da ligação de Mestre Ananias com Solano Trindade, Geraldo Filme, Plínio Marcos e grandes figuras da cena do samba e da cultura popular em São Paulo.

3.Veja no UOL a reportagem em vídeo sobre o evento, que foi ao ar no programa Metrópolis, da TV Cultura (SP).

4.Osvaldinho da Cuíca cantando e demonstrando a malandragem paulistana da tiririca.

5.Confira, no link abaixo, a performance do genial Germano Mathias, que foi primeiro a gravar um samba escrito por Geraldo Filme, "Baiano Capoeira". O vídeo, dedicado à história de Geraldo Filme, traz ricos depoimentos sobre a nossa cultura popular.
http://br.youtube.com/watch?v=RjKSN5vboMk

Parte 2 (continuação):http://br.youtube.com/watch?v=_NxIc2Y8OAA&NR=1


domingo, 28 de dezembro de 2008

GRUPO ROMANÇO TOCA OS RITMOS DO BRASIL NA CASA MESTRE ANANIAS



A temporada 2008 do Projeto Cultural Saberes do Brasil na Casa Mestre Ananias foi encerrada em grande estilo com a apresentação do grupo Romanço em 24 de novembro.


Fotos: Brigida Rodrigues "Di Lua"
Texto: Carlos Primo Vaz

Nessa noite alegre e descontraída, o grupo Romanço apresentou cantigas de folias de reis e de boi-bumbá, cirandas, xotes, entre outros ritmos da musicalidade brasileira. O Romanço é liderado pelo cantor, compositor e instrumentista Ricardo Dutra (na foto abaixo, tocando rabeca). Fazem também parte do Romanço os músicos Aline Mariani (voz), Adriano Sales (percussão e cavaquinho), Léo Gonçalves (baixo e violão) e Michel Machado (caixa de folia).

O Romanço tocou apenas composições próprias na Casa Mestre Ananias. O grupo está na estrada desde 2007 e tem a honra de ter sido batizado por Ariano Suassuna. O escritor paraibano, atendendo a pedidos dos músicos, escolheu o nome após acompanhar uma apresentação, e o nomeou Romanço por remeter às origens da língua portuguesa (bem de acordo com a autenticidade e valorização da cultura popular realizada pelo grupo). "Ariano disse que estava se sentindo em casa neste evento em nossa cidade e batizou o grupo", disse Dutra.

Durante o evento, os músicos de Guarulhos (SP) também mostraram suas habilidades em manipular bonecos. O Miota, o Jaraguá, a burrinha Primavera e o Boi levaram a garotada à euforia com suas performances.



Com o Samba Chula de São Brás
Músico talentoso e comunicativo, o jovem Ricardo Dutra havia ganho dias antes uma ótima oportunidade para se aprimorar como artista. Ele estava presente à apresentação do Samba Chula de São Brás na Casa Mestre Ananias, em 19 de novembro, quando foi convidado pelos músicos baianos para se juntar ao grupo na turnê que fariam por São Paulo naquela semana (o violeiro do grupo não pôde embarcar para a capital paulistana, desfalcando o elenco). Nesse dia 19, o capoeira e designer Candi Glugovskis tocou sua viola-de-machete com o Samba Chula, aos quais também Ricardo Dutra se uniu para as apresentações posteriores na cidade.

Como curiosidade vale registrar que, entre as diversas apresentações artísticas deste ano na Casa Mestre Ananias, esta foi a única que utilizou microfones, amplificadores e instrumentos eletrônicos.

Agradecimentos à Tania Bustamante, à Flávia Santos, ao Marcelo Manzatti, ao restaurante Brasil a Gosto e à Redecard por viabilizarem este projeto cultural, que trouxe à Casa Mestre Ananias neste 2008 a riqueza das expressões culturais do Brasil e uma oportunidade única de vivência, troca de experiências e conhecimento. Parabéns a todos que participaram e fizeram parte do projeto cultural Saberes do Brasil 2008!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

"BEXIGA: UM BAIRRO AFRO-ITALIANO" CONTA UM PEDAÇO DA HISTÓRIA PAULISTANA

Texto: Carlos Primo Vaz

O livro "Bexiga: Um Bairro Afro-Italiano" é um lançamento da editora Anna Blume e conta a história do bairro no qual está instalada a Casa Mestre Ananias. O jornalista Márcio Sampaio de Castro, autor do livro e descendente de negros, teve entrevista veiculada nesta manhã de sexta-feira pela rádio CBN, em São Paulo.

Márcio falou sobre a origem da localidade, onde ergueu-se no século 18 a Chacára do Bexiga (o terreno da chácara foi loteado a partir do final do século 19).

No bairro, segundo Márcio, ocorreu o "fenômeno dos quilombos urbanos", pois nele vinham se esconder negros (que fugiam das casas de famílias brancas na cidade e das fazendas de café) durante o período da escravidão.

Havia a predominância de negros habitando certas áreas (como as margens do rio Saracura), enquanto os imigrantes italianos, vindos principalmente da Calábria (séculos 19 e 20), ocupavam as áreas mais altas, onde não ocorriam enchentes (como o Morro dos Ingleses).

O jornalista também contou que essa área próxima ao Saracura (onde se localiza a escola de samba Vai-Vai hoje) foi conhecida por "Pequena África", tamanha era a população negra que ali habitava. O batuque e o samba dos negros era motivo de repressão do Estado, pois a "polícia ali chegava quebrando os instrumentos musicais", numa época não muito distante.

Uma das histórias contadas no livro trata do nascimento da Pastoral Afro na paróquia de Nossa Senhora de Achiropita (localizada na rua 13 de Maio), para depois se difundir na Igreja Católica por todo o Brasil.

O nome do bairro, também escrito como Bixiga, pode ter sido modificado por moradores que não gostariam que o local tivesse uma associação direta com bexiga (sinônimo de varíola). Mas, se forem consultados os mapas, Bela Vista é o único nome que denomina oficialmente a localidade.

Leia! A leitura abre as portas da imaginação e nos torna cidadãos conscientes.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

OS 84 ANOS DE MESTRE ANANIAS FERREIRA

Mestre Ananias, 84 anos com muito fôlego.

Fotos: Brigida Rodrigues "Di Lua"
Texto: Carlos Primo Vaz


Ananias Ferreira chegou a São Paulo há mais de meio século, com determinação e coragem para vencer os desafios que a grande metrópole iria lhe apresentar. Com fé em Deus e a força dos orixás, Mestre Ananias saiu da tranquila São Félix (BA) em 1953 para enfrentar o ambiente hostil e cinzento de São Paulo com a música e a capoeira. Aqui Mestre Ananias encontrou o ambiente adequado para desenvolver o seu trabalho artístico e criar a família.

Em 29 de novembro, numa tarde de sábado, comemoramos com grande entusiasmo os 84 anos de nosso mestre Ananias Ferreira. A sabedoria e o bom senso de Mestre Ananias é fundamental para nortear o curso das atividades e a conduta dos indivíduos na casa inaugurada em sua homenagem, há um ano e meio com as portas abertas para ensinar capoeira aos interessados.

Sua saúde fragilizada (o mestre esteve internado por alguns dias, recentemente, para cuidar dos pulmões) não o impede de se deslocar toda terça da Cidade Tiradentes para o Bixiga para comandar a roda de capoeira da casa. Sempre observador e indo direto ao assunto, Mestre Ananias cobra o empenho e a atenção dos presentes aos encontros, exigindo atenção para o coro cantar afinado e a roda "pegar no breu".

A roda de capoeira foi bem animada nesse sábado festivo, com a presença dos amigos e frequentadores habituais. Ao cortar o bolo, após os parabéns, Mestre Ananias reforçou o apreço pela companhia de Rodrigo Minhoca, a quem afirmou ser "como um filho" para ele. Também foram ditas algumas palavras por Mestre Brasília, aprovando o trabalho desenvolvido pela Casa Mestre Ananias e saudando o mestre.

O tradicional samba de roda rolou no final da tarde, para o agrado das moças que se vestem com calças compridas para jogar capoeira e depois as trocam pelas coloridas saias.

Muitos anos de vida e muita energia para Mestre Ananias, o nosso mestre!